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06 março 2007

Amor, neo-amor, paixão "fast-food"... Vocês já se deram conta?

O texto abaixo é de Arnaldo Jabor e aparece na edição de hoje do jornal O Globo, Segundo Caderno, Página 8. Vale a leitura, re-leitura e análise profunda. Recomendo uma taça de vinho para acompanhar e que se mantenha na lembrança que o texto não é pessimista, mas talvez apresente uma forma de analisar da qual temos medo de aceitar. Boa leitura.

Onde está o neo-amor?

Não há mais lugar para o 'happy end'

Eu já fiz filmes de amor. Talvez por isso, e também pela música de Rita Lee com texto que escrevi, pessoas que encontro na rua me agarram e perguntam: “Mas... afinal, o que é o amor?”. E esperam, de olho muito aberto, uma resposta “profunda”.

Eu penso, penso, e digo: “Sei lá...” Não sei, ninguém sabe, mas há no ar um lamento profundo pelo fim do sonho platônico de harmonia, de felicidade, de happy end. Sinto dizer, mas não há mais espaço para o happy end, nem no amor, nem na política, em nada.

Quando eu era jovem, nos anos 60/70, o amor era um desejo romântico. Depois, nos anos 80/90, foi ficando um amor de consumo, um amor de mercado. O ritmo do tempo acelerou o amor, o dinheiro contabilizou o amor, matando seu mistério impalpável.

O amor, e tudo o mais, está perdendo a transcendência.

Não existe mais o amante definhando de solidão, nem romeus nem julietas, nem pactos de morte; não existe mais o amor nos levando para uma galáxia remota, nem a sagrada simbiose que nos traria a eternidade feliz.

O amor não tem mais porto, não tem onde ancorar, não tem mais a família nuclear para se abrigar. O amor ficou pelas ruas, em busca de objeto, esfarrapado, sem rumo. Não temos mais músicas românticas, nem o lento perder-se dentro de “olhos de ressaca”, nem o formicida com guaraná. Mas, mesmo assim, continuamos ansiando por uma paixão impossível.

Existe o amor, claro. O que chamamos de “amor” vive dentro de nós como uma fome “celular”. Está entranhado no DNA, no fundo da matéria. É uma pulsão inevitável, é uma reprodução ampliada da cópula entre o espermatozóide e o óvulo, interpenetrando-se. Somos grandes células que querem se re-unir, separadas pelo sexo que as dividiu. O resto é literatura. Se bem que grandes poetas como John Donne, sabiam que não viramos “anjos” com o amor; sabiam que o amor é uma demanda da Terra, para atingirmos a calma felicidade dos animais.

Mas, onde anda hoje em dia esta pulsão chamada “amor”? Bem... vamos lá: Uma das marcas do século XXI é o fim da crença na plenitude, na inteireza, seja no sexo, no amor e na política. Não adianta nos lamentarmos, pois estamos diante de um mundo afetivo e sexual muito novo, que muda veloz como a tecnologia.

Se isso é um bem ou um mal, não sei. Mas é inevitável.

Temos de parar de sofrer romanticamente porque “acabou o amor” (ou mesmo o paraíso social...) ou, ao menos, o antigo amor.

O pensamento afetivo, amoroso, ou filosófico continua lamentando uma unidade perdida.

Continuamos — amantes ou filósofos — a sonhar como uma volta ao passado harmônico.

Temos uma nostalgia lírica por alguma coisa que pode voltar atrás. Não volta. Nada volta atrás. Há que perder esperanças antigas e talvez celebrar um sonho mais trágico, efêmero.

Em tudo.

Não adianta lamentar a impossibilidade do amor. Temos de celebrar o neo-amor. Cada vez mais só o parcial, o fortuito é gozoso. Só o parcial nos excita. Temos de parar de sofrer por uma plenitude que não chega nunca.

Hoje, há que assumir a incompletude talvez como única possibilidade humana. E achar isso bom. E gozar com isso.

Em todas as revistas, fotos, filmes, a imagem do erotismo contemporâneo “esquarteja” o corpo humano. Vejam as artes gráficas, fotos de revistas de arte, como “Photo” (ou em Tarantino), onde tudo é (reparem) decepado, dividido, pés, sapatos escarpins negros, unhas pintadas, bocas vermelhas, paus, seios, corpos imitando coisas, tudo solto como num abstrato painel. Tudo evoca a impossibilidade saudosa de um “objeto total”, da pessoa inteira.

À primeira vista parece uma louvação da perversão, do fetichismo, do erotismo das “partes”, do “amor em pedaços”. No entanto, estamos além do fetichismo, além da perversão — conceitos do século XIX.
Não há mais “todo”; só partes. O verdadeiro amor total fica cada vez mais impossível, como as narrativas romanescas.

Hoje em dia, não há mais noção do que seria a felicidade, como antigamente. O que é ser feliz? Onde está a felicidade no amor e sexo? No casamento? Sem a promessa de amor eterno, tudo vira uma aventura. Em vez da felicidade, o gozo rápido do sexo ou o longo sofrimento gozoso do amor, só as fortes emoções, a deliciosa dor, as lágrimas, hotéis, motéis, perdas, retornos, desertos, luzes brilhantes ou mortiças, a chuva, o sol, o nada.

O amor hoje é um cultivo da “intensidade” contra a “eternidade”. É o fim do happy end. É bom que acabe esta mentira do idealismo romântico americano, para legitimar a família e a produção, pois, na verdade, tudo acaba mal na vida. Não se chega a lugar nenhum porque não há aonde chegar.

O amor, para ser eterno, tem de ficar eternamente irrealizado. A droga não pode parar de fazer efeito e, para isso, a crise não pode passar. Aí, a dor vem como prazer, a saudade como excitação, a parte como o todo, o instante como eterno. E, atenção; não falo de masoquismo; falo de um espírito do tempo. É bom sofrer numa metafísica passional, é bom a saudade, a perda, tudo, menos a insuportável felicidade.

Tudo bem, buscarmos paz e sossego. Tudo bem nos contentarmos com o calmo amor, com um “agapê”, uma doce amizade dolorida e nostálgica do tesão, tudo bem... Mas a chama emocionante só vem com a droga pesada do século XXI: a paixão. E isso é bom. Temos que acabar com a idéia de felicidade fácil. Enquanto sonharmos com a plenitude, seremos infelizes. A felicidade não é sair do mundo, como privilegiados seres, como estrelas de cinema, mas é entrar em contato com a trágica substância de tudo, com o não-sentido, das galáxias até o orgasmo. Temos de ser felizes sem esperanças.

E tem mais: este artigo não é pessimista.

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